Não decidir ainda também comunica algo

Existe uma ideia confortável associada à decisão: a de que só há comunicação quando algo é feito. Quando se assina, quando se aceita, quando se recusa. Tudo o que acontece antes costuma ser tratado como um intervalo neutro, um tempo suspenso em que nada está sendo dito.

No Direito, esse intervalo não é vazio.

A ausência de decisão também ocupa espaço. E, como toda ocupação de espaço em uma relação jurídica, ela produz significado. Mesmo quando não há gesto formal, há uma postura sendo percebida.

Não decidir ainda não é sinônimo de inexistência de posição. É apenas uma posição que não foi explicitada em forma de ato final.

Muitas situações jurídicas permanecem em um estado intermediário. Não foram concluídas, mas também não estão abertas ao infinito. Há propostas em análise, termos em avaliação, acordos “quase prontos”, escolhas “a serem vistas depois”. Esse estado costuma ser interpretado internamente como cautela, reflexão ou espera legítima.

E, de fato, pode ser tudo isso.

O ponto não está na intenção. Está no efeito.

Do lado de fora, a inação também comunica. Ela comunica ritmo. Comunica prioridade. Comunica disponibilidade. Comunica limite. Mesmo quando não há palavra, há leitura. Mesmo quando não há decisão, há interpretação.

Isso não é um problema a ser corrigido. É uma característica estrutural das relações mediadas pelo Direito.

O sistema jurídico não trabalha apenas com ações explícitas. Ele também registra omissões, silêncios prolongados e adiamentos sucessivos. Não como falhas morais, mas como dados de comportamento. A postura não se resume ao que foi decidido; ela inclui o que foi deixado em aberto por tempo suficiente para produzir efeito.

Quando alguém permanece sem decidir, algo se estabiliza naquele estado. Expectativas se ajustam. Outras partes passam a agir considerando aquele silêncio como parte do cenário. O tempo passa a operar como elemento ativo, não como simples pano de fundo.

Essa dinâmica costuma ser invisível para quem está dentro dela.

Para quem hesita, a sensação é de suspensão. Como se a decisão ainda estivesse inteira no futuro, intacta, aguardando o momento certo. Para o entorno jurídico, no entanto, o tempo não está parado. Ele está consolidando uma leitura: “é assim que essa decisão está sendo tratada”.

Não se trata de dizer que decidir rápido é melhor. Nem que toda hesitação é prejudicial. O Direito não funciona por slogans. Há contextos em que esperar é sensato. Há situações em que não decidir ainda é, de fato, a postura mais responsável naquele momento.

O ajuste fino está em reconhecer que essa postura existe.

Quando a inação é percebida como inexistência de decisão, cria-se uma ilusão de neutralidade. Como se nada estivesse sendo comunicado. Como se ainda fosse possível escolher qualquer caminho sem que o percurso até ali tivesse deixado marcas.

Na prática, o percurso sempre deixa marcas.

A diferença entre decidir e não decidir não é absoluta. Ambas são formas de posicionamento no tempo. Ambas afetam o ambiente jurídico ao redor. A diferença está em como esse posicionamento é assumido internamente.

Há uma distinção sutil, mas relevante, entre “ainda não decidi” e “estou deixando a decisão em suspenso”. A primeira frase costuma carregar a sensação de controle. A segunda reconhece que o tempo está operando enquanto a decisão não vem.

Esse reconhecimento não pressiona. Não alerta. Não corrige. Apenas traz a postura à superfície.

Quando a postura da inação se torna visível, algo se organiza. A hesitação deixa de ser um vazio desconfortável e passa a ser uma escolha provisória consciente. Mesmo que a decisão final ainda não esteja clara, o modo de estar diante dela se torna mais definido.

Isso reduz a paralisia silenciosa.

Paralisia não surge apenas da dúvida. Ela surge, muitas vezes, da crença de que nada está acontecendo enquanto se espera. Quando se percebe que a espera também comunica, o tempo deixa de ser um espaço morto e passa a ser um elemento a ser considerado com mais lucidez.

Não para apressar.
Não para forçar conclusão.
Mas para compreender o que já está em curso.

No Direito, decisões raramente aparecem de forma abrupta. Elas se acumulam. Ganham contorno. Perdem alternativas. Mesmo antes de existir um “sim” ou um “não”, há um histórico sendo formado.

Tornar isso visível não transforma a hesitação em erro. Apenas a coloca no lugar correto: o de uma postura que já faz parte da situação.

Quando essa consciência se estabelece, a decisão jurídica deixa de ser algo distante, reservado para um momento futuro ideal. Ela passa a ser entendida como um processo contínuo, do qual até a pausa faz parte.

E, às vezes, esse reconhecimento é suficiente para devolver movimento a algo que parecia parado.


Conteúdo educativo e informativo.
A aplicação concreta depende do contexto específico
e das exigências legais pertinentes.

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