No atual cenário do mercado de trabalho brasileiro, a busca por formas mais flexíveis e econômicas de contratação tem levado empresas e profissionais a adotarem modelos variados, entre os quais se destaca a contratação simultânea de um mesmo indivíduo como empregado sob o regime da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e, paralelamente, como Pessoa Jurídica (PJ). Essa prática, embora aparente trazer vantagens em termos fiscais e operacionais, foi recentemente alvo de uma decisão emblemática do Tribunal Superior do Trabalho (TST), que a considerou uma fraude à legislação trabalhista.

Este artigo tem como objetivo explicar detalhadamente a decisão do TST, os fundamentos que a embasam, as diferenças essenciais entre os regimes CLT e PJ, os riscos para as empresas e profissionais, bem como orientar sobre como realizar contratações seguras e alinhadas à legislação vigente. Além disso, abordaremos o contexto jurídico mais amplo, incluindo a reforma trabalhista e as posições do Supremo Tribunal Federal (STF), para que o leitor compreenda o impacto prático dessa jurisprudência e possa tomar decisões fundamentadas em seu ambiente profissional.

O que motivou a decisão do TST sobre contratos simultâneos PJ e CLT

A controvérsia em torno da contratação simultânea de trabalhadores como empregados regidos pela CLT e prestadores de serviços como Pessoas Jurídicas (PJ) ganhou destaque com o julgamento pelo TST de um caso envolvendo uma médica pediatra que mantinha vínculo empregatício formal na empresa enquanto também prestava serviços na mesma instituição como PJ. O Tribunal entendeu que essa prática configura fraude, pois visa burlar direitos trabalhistas garantidos pela legislação, como férias, 13º salário, FGTS e proteção previdenciária.

O TST destacou que a contratação paralela como PJ não pode ser utilizada como artifício para mascarar uma relação de emprego, especialmente quando as funções exercidas são idênticas, a subordinação é evidente e o controle da prestação dos serviços lembra uma relação empregatícia típica. O contrato de prestação de serviços, nesse contexto, perde sua autonomia e passa a ser um instrumento para fraudar a legislação trabalhista, o que é vedado.

Essa decisão reforça um princípio fundamental do Direito do Trabalho: a proteção do trabalhador enquanto parte mais vulnerável da relação jurídica, evitando que direitos previstos em lei sejam suprimidos por meio de contratos que, na prática, reproduzem a relação de emprego.

Diferenças entre contratação CLT e PJ

Para entender melhor os fundamentos da decisão do TST, é essencial compreender as diferenças entre os regimes CLT e PJ, que transcendem a mera formalidade contratual e tocam direitos, responsabilidades e a natureza da relação jurídica.

Contratação pelo regime CLT

O trabalhador contratado sob o regime da CLT possui vínculo empregatício formal, caracterizado por subordinação, pessoalidade, habitualidade e onerosidade. Esse vínculo assegura uma série de direitos trabalhistas, tais como:

  • Registro em carteira de trabalho;
  • Jornada de trabalho controlada;
  • Pagamento de salário fixo;
  • Recolhimento de FGTS;
  • Direito a férias remuneradas;
  • 13º salário;
  • Aviso prévio;
  • Licença maternidade e paternidade;
  • Benefícios previdenciários.

A CLT visa garantir a proteção social e econômica do trabalhador, reconhecendo sua posição de vulnerabilidade frente ao empregador.

Contratação como pessoa jurídica (PJ)

A contratação como PJ, por sua vez, configura uma relação de prestação de serviços autônoma, na qual a pessoa jurídica presta serviços à empresa contratante sem subordinação direta, podendo gerir sua própria organização, horários e métodos de trabalho. Nesse regime:

  • Não há vínculo empregatício;
  • O PJ é responsável por sua tributação e obrigações fiscais;
  • Não há direito a FGTS, férias, 13º salário ou outros benefícios trabalhistas;
  • A relação é regida por contrato civil ou comercial, e não pela CLT.

Esse modelo é comum para profissionais liberais, consultores e prestadores de serviços que atuam de forma independente.

Quando a confusão ocorre

O problema surge quando um mesmo profissional acumula os dois regimes na mesma empresa, executando atividades semelhantes ou idênticas, sob controle e subordinação da contratante. Essa situação pode indicar que o contrato PJ é apenas uma forma disfarçada de vínculo empregatício, prática conhecida como “pejotização”. Essa estratégia busca reduzir custos e encargos trabalhistas, mas pode resultar em passivos judiciais e prejuízos para ambas as partes.

Riscos para empresas ao contratar profissionais como PJ e CLT simultaneamente

A decisão do TST evidencia os riscos significativos que as empresas correm ao adotar a prática da contratação simultânea de trabalhadores como CLT e PJ. Dentre os principais riscos, destacam-se:

Reconhecimento de vínculo empregatício e passivos trabalhistas

Se a Justiça do Trabalho reconhece que o contrato PJ é, na verdade, uma relação de emprego disfarçada, a empresa pode ser condenada a pagar todos os direitos trabalhistas retroativamente, incluindo:

  • Salários e benefícios não pagos;
  • Multas por ausência de recolhimento de FGTS;
  • Indenizações por danos morais e materiais;
  • Honorários advocatícios e custas processuais.

Multas e sanções administrativas

Além das condenações judiciais, a empresa pode estar sujeita a multas aplicadas por órgãos fiscalizadores, como o Ministério do Trabalho e Emprego, que verifica o cumprimento das normas trabalhistas.

Danos à reputação e à imagem institucional

A exposição a processos trabalhistas e a prática de fraudes podem prejudicar a imagem da empresa no mercado, afetando relações comerciais, atração de talentos e a confiança de clientes e investidores.

Comprometimento da saúde financeira

O pagamento de passivos trabalhistas e multas pode comprometer o fluxo de caixa e a sustentabilidade financeira do negócio, especialmente em casos de demandas judiciais volumosas ou complexas.

Por esses motivos, a decisão do TST serve como um alerta para que as empresas adotem práticas de contratação transparentes e dentro da legalidade, evitando riscos desnecessários.

Como garantir a legalidade na contratação de PJs

Para que a contratação de Pessoas Jurídicas ocorra de forma segura e legítima, algumas medidas e cuidados são essenciais:

Respeitar a autonomia do prestador de serviços

O contrato deve garantir que o PJ atue com independência, definindo seus próprios métodos, horários e estratégias para execução dos serviços, sem subordinação direta à empresa contratante.

Evitar funções idênticas às de empregados CLT

O profissional PJ não deve exercer as mesmas funções que os empregados da empresa, evitando que haja confusão ou sobreposição de atividades que caracterizem vínculo empregatício.

Estabelecer contratos claros e detalhados

Os contratos de prestação de serviços devem prever cláusulas claras sobre o objeto da contratação, prazos, formas de pagamento, responsabilidades e ausência de subordinação, obedecendo à Lei nº 13.429/2017, que regula a terceirização e as contratações de serviços.

Manter a documentação e evidências

É fundamental que a empresa mantenha toda a documentação que comprove a autonomia do PJ e a inexistência de vínculo empregatício, como registros de entregas, comunicação formal, ausência de controle de jornada e não imposição de regras típicas de emprego.

Consultar assessoria jurídica especializada

Antes de formalizar contratos, a empresa deve buscar orientação de profissionais especializados em Direito do Trabalho para avaliar os riscos e ajustar as cláusulas contratuais conforme a legislação vigente.

Impactos da decisão do TST para profissionais liberais e autônomos

A decisão do TST também traz importantes consequências para os profissionais que atuam como PJ e, eventualmente, mantêm vínculo CLT com a mesma empresa:

Perda ou restrição de benefícios trabalhistas

Ao manter contratos simultâneos, o profissional pode ter dificuldades para requerer direitos trabalhistas, caso a Justiça entenda que a contratação PJ foi fraudulenta, além de eventuais exclusões de benefícios previdenciários.

Maior exposição a disputas judiciais

Profissionais podem ser chamados a comprovar a autonomia e independência do seu trabalho para evitar o reconhecimento do vínculo e as implicações decorrentes, o que pode resultar em processos e custos judiciais.

Necessidade de avaliar riscos e vantagens

Antes de aceitar propostas que envolvam contratação simultânea, o profissional deve analisar cuidadosamente as condições, benefícios, obrigações fiscais e possíveis riscos legais, buscando sempre orientação jurídica.

Proteção contra fraudes

A decisão do TST também protege os trabalhadores contra práticas que busquem suprimir seus direitos trabalhistas, garantindo que a relação de emprego não seja camuflada por contratos de prestação de serviços paralelos.

O papel da reforma trabalhista e decisões recentes do STF no contexto da “pejotização”

Desde a aprovação da reforma trabalhista em 2017, diversas mudanças foram implementadas visando maior flexibilização nas relações de trabalho, o que impactou diretamente as formas de contratação, incluindo a modalidade PJ. Entre os pontos relevantes:

Flexibilização e ampliação de modalidades contratuais

A reforma trouxe dispositivos que permitem maior liberdade para as partes ajustarem seus contratos, embora não tenham alterado o conceito básico de vínculo empregatício.

Enunciado da I jornada de direito comercial

Em evento promovido pelo Conselho da Justiça Federal, foi aprovado o Enunciado nº 32, que permite a pactuação de prazos superiores a quatro anos em contratos de prestação de serviços entre empresários, sob determinadas condições, evidenciando nuances na interpretação dos contratos comerciais.

Posição do STF

O Supremo Tribunal Federal tem suspenso processos que discutem a pejotização, indicando a necessidade de uma definição mais clara e uniforme sobre a validade desses contratos frente à legislação trabalhista.

Necessidade de diálogo entre fontes jurídicas

A teoria do diálogo das fontes busca substituir critérios tradicionais para resolver conflitos normativos, permitindo uma visão mais ampla e contextualizada das normas aplicáveis, o que é essencial diante da complexidade das relações de trabalho contemporâneas.

Essas mudanças e debates reforçam a importância de acompanhamento constante das decisões judiciais e das alterações legais para garantir segurança jurídica.

Estratégias para empresas e profissionais diante da jurisprudência atual

Em face da decisão do TST e do contexto jurídico atual, tanto empresas quanto profissionais devem adotar estratégias para mitigar riscos e assegurar relações de trabalho lícitas e transparentes.

Para empresas

  • Implementar compliance trabalhista: Desenvolver políticas internas claras que previnam fraudes e garantam o cumprimento da legislação.
  • Revisar contratos existentes: Avaliar contratos atuais para identificar e corrigir cláusulas que possam caracterizar vínculo disfarçado.
  • Capacitar gestores: Promover treinamentos para aqueles responsáveis pela contratação e gestão de pessoal sobre os riscos da pejotização.
  • Investir em assessoria jurídica preventiva: Consultar especialistas para orientar sobre melhores práticas contratuais e mudanças legislativas.

Para profissionais

  • Entender as diferenças contratuais: Conhecer profundamente os direitos e obrigações de cada regime contratual.
  • Avaliar propostas com cuidado: Analisar os riscos e benefícios antes de aceitar contratos simultâneos.
  • Buscar orientação jurídica: Consultar advogados especialistas para esclarecer dúvidas e evitar prejuízos futuros.
  • Manter documentação organizada: Guardar contratos, recibos e comunicações que comprovem a natureza da prestação de serviços.

Conclusão

A decisão do Tribunal Superior do Trabalho que declara fraude na contratação simultânea de um mesmo profissional como PJ e CLT representa um importante marco na proteção dos direitos trabalhistas e no combate a práticas fraudulentas. Para as empresas, é um alerta para a necessidade de revisão e adequação de suas políticas de contratação, evitando passivos judiciais e prejuízos financeiros. Para os profissionais, reforça a importância de compreender seus direitos e as implicações dos diferentes regimes contratuais.

Em um ambiente jurídico em constante transformação, marcado pela reforma trabalhista e debates no STF, a recomendação é clara: investir em conhecimento, transparência e assessoria jurídica especializada é fundamental para garantir relações de trabalho justas, seguras e alinhadas à legislação.

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